Veterinário alerta para riscos de anticoncepcionais hormonais em cães e gatos

O uso de anticoncepcionais hormonais para evitar o cio em cadelas e gatas pode parecer uma solução simples e barata, mas oferece riscos à saúde dos animais. É o que alerta o médico-veterinário Caio Pain da Silva, de Dracena (SP), ao explicar que esses fármacos interferem no eixo hipotálamo-hipófise-gônadas, responsável por regular a secreção hormonal e a atividade reprodutiva. Na medicina veterinária, o mais utilizado é a progesterona sintética.
Os medicamentos atuam sobre a regulação hormonal para dificultar a progressão e a manifestação do cio. A exposição aos hormônios, porém, pode provocar efeitos adversos, e os riscos variam conforme o medicamento, a dose, o momento da aplicação e as características de cada animal.
Entre as possíveis complicações estão a hiperplasia endometrial cística, a piometra, as alterações mamárias, a resistência à insulina, o diabetes mellitus e a obesidade. A piometra é uma infecção uterina que pode se agravar e colocar a vida da fêmea em risco. Segundo o veterinário, os progestágenos podem aumentar esse risco porque favorecem a secreção do endométrio, reduzem a capacidade de contração e drenagem do útero e comprometem parte das defesas locais, criando condições propícias para infecções bacterianas ascendentes.
Caio ressalta que os riscos não dependem apenas da quantidade de aplicações. Uma dose isolada também pode representar perigo, dependendo das condições do animal e da fase do ciclo reprodutivo em que o medicamento é administrado. "Portanto, uso ocasional não é sinônimo de uso seguro", alerta. Não existe, segundo ele, uma quantidade de aplicações considerada universalmente segura para todos os animais.
As alterações mamárias podem ser benignas ou malignas, e a relação com o uso de hormônios depende de fatores como idade, princípio ativo, dose, frequência de utilização e predisposição individual. Os tutores devem observar sinais como apatia, fraqueza, falta de apetite, vômitos, aumento da ingestão de água e do volume de urina, secreção vaginal, aumento do volume abdominal, dor ao toque e febre, que podem indicar piometra. Nas mamas, os indícios incluem crescimento rápido, nódulos endurecidos, calor, dor, vermelhidão, feridas ou escurecimento da pele. Diante de qualquer um desses sinais, a orientação é buscar avaliação veterinária imediata.
O especialista recomenda ainda que os tutores informem ao veterinário se o animal recebeu ou costuma receber esse tipo de medicamento, mesmo que a aplicação tenha ocorrido há algum tempo.
A castração é uma alternativa para evitar a reprodução e pode prevenir doenças, mas a indicação e o momento da cirurgia devem ser avaliados individualmente. Nas fêmeas, a remoção adequada do útero elimina o risco de piometra uterina. O procedimento também pode reduzir o risco de tumores mamários, especialmente quando feito mais cedo — benefício mais bem estabelecido em gatas, enquanto nas cadelas ainda há discussões sobre a dimensão dessa proteção e a idade ideal. Em cães de porte grande e gigante, a castração muito precoce pode estar associada a problemas ortopédicos, pois os hormônios sexuais participam do desenvolvimento dos ossos. A avaliação pré-operatória é importante para identificar doenças preexistentes e planejar anestesia e cirurgia.
Sobre custos, o veterinário orienta que não se deve comparar apenas o preço imediato da aplicação, mas considerar a frequência de uso ao longo dos anos e os possíveis gastos com o tratamento de complicações. "Não compare apenas o preço de hoje. Considere a saúde do seu pet e o custo ao longo dos anos", diz. A castração também envolve custos e riscos cirúrgicos, e nenhum dos métodos é isento de risco.
A dificuldade financeira e a falta de acesso ao procedimento estão entre os fatores que levam tutores a recorrer aos anticoncepcionais. Para Caio, é importante orientar sem julgar o tutor e ampliar o acesso a programas de castração, principalmente para famílias que não conseguem pagar por uma cirurgia particular. Entre os caminhos estão programas gratuitos ou de baixo custo oferecidos por prefeituras, organizações de proteção animal, ONGs, associações e projetos de universidades com atendimento veterinário.
Enquanto a castração não pode ser realizada, a principal medida para evitar uma gestação indesejada é impedir o contato entre a fêmea no cio e machos não castrados, com manejo e controle do ambiente. O veterinário conclui que a escolha deve considerar riscos, benefícios e as condições específicas de cada animal, com acompanhamento profissional.
Principais informações
- Anticoncepcionais hormonais à base de progesterona sintética interferem no sistema que regula a atividade reprodutiva dos animais.
- Entre os riscos estão piometra, hiperplasia endometrial cística, alterações mamárias, resistência à insulina, diabetes e obesidade.
- Uma única dose pode ser perigosa, dependendo das condições do animal e da fase do ciclo reprodutivo.
- Sinais como apatia, vômitos, aumento do consumo de água e secreção vaginal exigem avaliação veterinária imediata.
- A castração deve ser avaliada caso a caso, considerando espécie, raça, porte, idade e saúde do animal.

