Guardiã da memória de Presidente Prudente tem nome inspirado na primeira mulher no espaço

Valentina Tereshkova Trugilo Romeiro Flores nasceu e vive em Presidente Prudente (SP), onde é conhecida como "Guardiã da memória". Professora, coordena o Museu e Arquivo Histórico Municipal e carrega no nome uma homenagem à cosmonauta russa Valentina Tereshkova, primeira mulher a viajar ao espaço.
A escolha foi do pai. Quando a mãe engravidou, ele apresentou três opções: Valentina Tereshkova; Maria Flores de Zapata, nome da esposa do revolucionário mexicano Emiliano Zapata, homenageado no nome do primeiro filho do casal; e Dolores Ibárruri, em referência à revolucionária espanhola. A mãe ficou com Valentina.
As escolhas refletiam a visão de mundo do pai, formada em um período de tensão política. Ele se mudou para Presidente Prudente para trabalhar nos Correios como rádio telegrafista e participou da fundação do Partido Comunista na cidade. Em 1968, durante a ditadura militar, foi preso e depois exilado.
Após o nascimento da filha, ele enviou à Embaixada Russa no Brasil uma cópia do registro dela. Segundo Valentina, o pai não pedia presentes nem favores: queria apenas contar que havia homenageado uma mulher que considerava importante para a história mundial.
A carta chegou a Valentina Tereshkova. Quando a menina tinha dois anos, uma comitiva da embaixada foi até a casa da família e entregou um colar de âmbar do Mar Báltico — segundo ela, o segundo no Brasil —, bonecas, outros objetos, uma fotografia autografada pela cosmonauta e uma bolsa de estudos condicionada ao aprendizado da língua russa.
"Eu guardo o colar até hoje. Ele não tem um valor financeiro, tem um valor emocional para mim", diz Valentina, que lembra daquele momento ao lado do pai. Ele morreu em 1998.
A ligação com o museu começou em 2007, quando ela conheceu o professor Ronaldo Macedo, então diretor da instituição, e recebeu o convite para trabalhar no local após um curso ministrado por ele. Hoje, atua na preservação e organização do acervo, que reúne mais de 100 mil documentos, alguns escritos à mão, e mais de 5 mil mapas e plantas, desde a Fazenda Pirapó-Santo Anastácio.
Valentina afirma que há personagens e acontecimentos com pouca atenção na narrativa sobre Presidente Prudente, entre eles os povos originários e as mulheres. "A gente sempre se refere às mulheres como a esposa de alguém… mas nunca o feito dela", diz, citando artistas, esportistas e mulheres que lutaram pelo voto feminino.
Fora do museu, é casada há 27 anos com Marcelo Flores, não tem filhos e diz gostar de animais, exercícios, viagens e livros. "Em um mundo de inteligência artificial, eu ainda gosto de ler", brinca.
Principais informações
- Valentina Romeiro, coordenadora do Museu e Arquivo Histórico Municipal, recebeu o nome em homenagem à cosmonauta Valentina Tereshkova
- O pai escolheu o nome e enviou uma carta à Embaixada Russa no Brasil sem pedir nada em troca
- Quando ela tinha dois anos, uma comitiva da embaixada visitou a casa da família e entregou presentes, entre eles um colar de âmbar do Mar Báltico
- O pai trabalhou nos Correios como rádio telegrafista, ajudou a fundar o Partido Comunista na cidade, foi preso em 1968 e exilado
- Ela coordena a preservação de um acervo com mais de 100 mil documentos e 5 mil mapas e plantas

