Nobel de Química de 2026 premia Kagan e Soai por métodos que controlam a formação de moléculas

Os químicos Henri B. Kagan e Kenso Soai receberam o Prêmio Nobel de Química de 2026 por descobertas que ajudam a controlar a produção de moléculas, com aplicações na fabricação de medicamentos, aromas, fragrâncias e novos materiais.
Algumas reações químicas geram duas versões de uma mesma molécula, que são imagens espelhadas uma da outra, como as mãos direita e esquerda. Apesar da semelhança, essas versões podem provocar efeitos diferentes no organismo.
Em muitos medicamentos, uma das versões produz o efeito terapêutico desejado, enquanto a outra pode causar efeitos colaterais desnecessários ou prejudiciais. O desafio dos químicos é obter a versão adequada com o maior grau de pureza possível.
Kagan descobriu que pequenas diferenças na composição de um catalisador — substância que promove reações químicas sem ser consumida — podem ampliar a quantidade de uma das versões no produto final. Até então, acreditava-se que a proporção das moléculas espelhadas no catalisador se repetiria no produto; Kagan mostrou que essa relação nem sempre ocorre. A descoberta forneceu ferramentas para aperfeiçoar reações e obter substâncias mais puras na indústria.
Soai, da Universidade de Ciências de Tóquio, seguiu outro caminho e desenvolveu uma reação em que o produto estimula a formação de novas moléculas iguais a ele, processo chamado autocatálise. Em experimento publicado em 1995, partiu de uma pequena vantagem de uma das versões moleculares, que ao final havia aumentado de forma expressiva.
Em 2003, ele apresentou uma reação capaz de produzir um resultado composto quase inteiramente por uma das versões espelhadas. No início, as duas se formavam, e uma pequena diferença aleatória fazia uma delas aparecer em maior quantidade. Essa vantagem bastava para que estimulasse a produção de mais cópias de si mesma e dominasse a reação, chegando a representar 99,99% do produto. Quando o experimento era repetido, a outra versão podia prevalecer, conforme o que acontecia por acaso no começo do processo.
As descobertas também ajudam a investigar uma questão sobre a origem da vida: por que os organismos utilizam apenas uma das duas versões possíveis de determinadas moléculas. Aminoácidos que formam as proteínas das células e açúcares do DNA seguem essa seleção, característica chamada de homociralidade.
A investigação começou no século 19, com Louis Pasteur, que ao estudar o ácido tartárico, importante na produção de vinho, identificou cristais com duas formas espelhadas. No início do século 20, o químico alemão Willy Marckwald obteve em uma reação mais de uma versão do que da outra; a diferença foi pequena, mas mostrou que a seleção poderia ocorrer fora dos organismos.
Em 1953, o físico Charles Frank propôs um modelo matemático para explicar como uma reação poderia gerar essa predominância, prevendo um mecanismo que favorecesse uma versão e permitisse que ela estimulasse sua própria produção. Os trabalhos de Kagan e Soai ajudaram a transformar essas ideias em experimentos. A reação de Soai é artificial e difere da química dos seres vivos, mas abriu caminhos para pesquisas sobre a origem da vida.
Principais informações
- Henri B. Kagan e Kenso Soai venceram o Prêmio Nobel de Química de 2026 por descobertas sobre o controle da produção de moléculas.
- As pesquisas têm aplicação na fabricação de medicamentos, aromas, fragrâncias e novos materiais.
- Kagan mostrou que pequenas diferenças em um catalisador podem ampliar a quantidade de uma das versões espelhadas de uma molécula no produto final.
- Soai desenvolveu uma reação de autocatálise que pode resultar em 99,99% de uma das versões, com o resultado dependendo de variações aleatórias no início do processo.
- Os trabalhos ajudam a investigar a homociralidade, o uso de apenas uma das versões de certas moléculas pelos organismos.

