Brasil deixa plenário da ONU com outras 76 delegações antes do discurso de Netanyahu

A delegação brasileira esteve entre as 77 que deixaram o plenário da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, na quinta-feira, 24, quando o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, subiu à tribuna. A saída esvaziou boa parte do salão e repetiu o ocorrido no ano anterior, durante a fala do israelense.
Netanyahu foi recebido com vaias, e o presidente da sessão, Khalilur Rahman, chanceler de Bangladesh, precisou pedir ordem. Segundo o Le Monde, o israelense reagiu pedindo que "qualquer outro covarde moral" que ainda estivesse no plenário saísse naquele momento.
O episódio veio dois dias depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva citar Netanyahu na abertura do debate geral. Lula disse que "gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças". Israel rejeita a acusação e afirma que suas operações têm como alvo o Hamas, autor dos ataques de 7 de outubro.
O The Washington Post descreveu a retirada como parte de uma "forte reação global" às políticas israelenses. Na tribuna, Netanyahu afirmou que Israel não desistirá de seus objetivos de segurança: "Nós vamos vencer, porque não temos outra escolha."
O Brasil era representado no plenário por integrantes de sua missão na ONU. O chanceler Mauro Vieira estava em Nova York, mas não acompanhou o discurso: participava de evento de apoio à UNRWA organizado por Brasil, Jordânia e Espanha. O secretário-geral da ONU, António Guterres, também estava no encontro e foi declarado persona non grata por Israel em 2024.
Em seu discurso, Netanyahu defendeu as ações de Israel e abordou a violência de colonos na Cisjordânia, dizendo que não toleraria justiceiros e que Israel é "um país de leis", além de acusar a imprensa internacional de ignorar ataques sofridos por colonos. Ele chamou o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, de "tirano" e o acusou de abrigar integrantes do Hamas e de prender jornalistas e opositores.
No mesmo dia, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, falou por vídeo, impedido de viajar aos EUA porque Washington negou vistos a ele e a outros integrantes da delegação palestina. Os EUA alegaram que a Autoridade Palestina não cumpriu compromissos de reforma e adotou iniciativas que, segundo Washington, prejudicam a paz. Abbas rejeitou as alegações.
A passagem de Netanyahu pela ONU ocorre sob o efeito do mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional em 2024, por acusações de crimes de guerra e contra a humanidade em Gaza. Israel contesta a jurisdição da Corte e rejeita as acusações; os Estados Unidos, não signatários do Estatuto de Roma, não reconhecem a jurisdição do tribunal sobre cidadãos israelenses.
O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, afirmou que buscaria a prisão de Netanyahu caso ele visitasse a cidade, mas depois reconheceu não ter autoridade jurídica para executar o mandado. A presença do primeiro-ministro também provocou protestos nas ruas de Nova York, cidade com quase 1 milhão de judeus, enquanto a polícia reforçava a segurança perto da sede da ONU.
Principais informações
- A delegação brasileira esteve entre as 77 que se retiraram do plenário da ONU antes do discurso de Benjamin Netanyahu
- Netanyahu foi recebido com vaias e reagiu pedindo que os "covardes morais" deixassem o salão
- A retirada ocorreu dois dias após Lula citar Netanyahu e falar em genocídio em Gaza
- O chanceler Mauro Vieira não acompanhou o discurso e estava em evento de apoio à UNRWA, ao lado de Guterres
- Netanyahu discursou sob mandado de prisão do TPI e criticou o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan

