BC do Paraguai intervém no Ueno Bank, e presidente da autarquia renuncia

O Banco Central do Paraguai decretou na madrugada desta terça-feira a intervenção no Ueno Bank após constatar que o índice de solvência da instituição caiu para menos da metade do mínimo exigido. Os serviços do banco digital foram suspensos, e clientes relataram não conseguir usar caixas eletrônicos nem acessar os canais online.
Horas depois do anúncio, o presidente do BCP, Carlos Carvallo, renunciou. Ele comandou o Ueno Bank até agosto de 2023 e afirmou, em coletiva, que o afastamento ajudaria a acalmar a controvérsia em torno da autarquia. Os diretores Marco Aurelio González e Carmen Marín também deixaram os cargos, e o presidente Santiago Peña nomeou o economista Raúl Vera Bogado para chefiar a autoridade monetária.
Peña atuou como investidor da holding do Ueno Bank até março de 2025, e deputados de oposição começaram a recolher assinaturas para pedir o impeachment do presidente.
Nascido como fintech em 2021, o Ueno obteve licença bancária em dezembro de 2023 e chegou a cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente a 40% da população paraguaia. Processava quase 3 milhões de transações por dia, volume que representava dois terços dos pagamentos eletrônicos das grandes redes de varejo.
O crescimento acelerado levantou suspeitas: reguladores e a imprensa apontaram empréstimos excessivos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, controlador do banco. Em março, a instituição realizou a maior emissão de títulos corporativos da história do Paraguai, captando US$ 350 milhões. No mês passado, a agência Fitch revisou a perspectiva da nota de crédito do banco para negativa.
Cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos estão na instituição, dos quais US$ 380 milhões pertencem ao Instituto de Previsão Social, incluindo depósitos de aproximadamente 32 mil aposentados. Fundos da Administração Nacional de Eletricidade e da represa de Itaipu também estão retidos.
Centenas de pessoas protestaram no centro de Assunção e em frente à residência oficial do presidente com cartazes que pediam que o Estado garantisse 100% dos recursos. O ato começou pacífico e terminou em confronto, depois que um grupo tentou avançar em direção ao Congresso; a Polícia Nacional conteve os manifestantes. Marcelino Vergara, aposentado de 68 anos, disse à AFP ter perdido todas as economias: "Só tenho 8 mil guaranis (quase US$ 1). Todos deveriam ir para a prisão".
O Fundo de Garantia de Depósitos do país cobre até 75 salários mínimos por pessoa, cerca de US$ 38 mil. O BCP informou que os aposentados terão o pagamento garantido, com prazo máximo de 15 dias, e busca encurtar esse período.
O Ministério Público pediu a abertura de investigação criminal, a polícia prendeu oito pessoas ligadas ao banco e a empresas do Grupo Vázquez, e o Congresso tenta aprovar às pressas mudança na legislação para acelerar a devolução dos recursos bloqueados. O caso trouxe incertezas para a percepção do mercado sobre o ambiente de negócios paraguaio.
Principais informações
- O BCP decretou a intervenção no Ueno Bank após a solvência ficar abaixo de 50% do mínimo exigido.
- Carlos Carvallo renunciou à presidência do Banco Central horas depois do anúncio, junto com dois diretores.
- O Ueno tem cerca de 3 milhões de clientes e processava quase 3 milhões de transações diárias.
- Cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos estão no banco, incluindo US$ 380 milhões do Instituto de Previsão Social.
- Protestos em Assunção terminaram em confronto, e oito pessoas ligadas ao banco e ao Grupo Vázquez foram presas.

