BC aponta maior risco de calote das famílias desde 2012 e renda comprometida no pior nível em 21 anos

O risco de as famílias brasileiras não conseguirem pagar suas dívidas chegou ao maior nível desde 2012, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, divulgado nesta terça-feira, 27. O mesmo documento indica que a fatia da renda das famílias comprometida com o pagamento de obrigações atingiu o maior patamar em 21 anos.
O Banco Central mede esse risco pelo indicador de ativos problemáticos (AP), que reúne as dívidas com atraso superior a 90 dias e aquelas que dão sinais de que não serão quitadas integralmente. Em junho de 2026, essas operações somavam 9,2% do crédito concedido a pessoas físicas, contra 9,3% no período anterior. O avanço dos atrasos foi o principal fator para a piora do indicador, e a situação é mais crítica entre as famílias de menor renda, que têm mais dificuldade de manter os pagamentos em dia.
A deterioração atingiu várias modalidades de empréstimo no primeiro semestre. O cartão de crédito fechou junho com 12,7% da carteira em situação problemática, depois de ter chegado a 13,2%. No consignado, o indicador ficou em 5%, e no financiamento de veículos, em 8,5%. O crédito pessoal sem desconto em folha e sem garantias registrou quase 15%, a maior taxa entre as linhas citadas, embora abaixo do pico de 16,5% verificado em 2016.
O relatório também identificou 20,3 milhões de pessoas classificadas como endividadas de risco em junho. Esse contingente corresponde a 17% dos devedores do Sistema Financeiro Nacional e é 75% maior que o registrado no mesmo mês de 2021. A classificação considera sinais variados de vulnerabilidade, como comprometimento elevado da renda com dívidas, inadimplência e contratação de empréstimos em diversas modalidades ao mesmo tempo.
O Banco Central avaliou ainda o impacto das regras contábeis que entraram em vigor em janeiro de 2025. A regulamentação mudou os critérios usados pelos bancos para reconhecer perdas com operações de crédito, o que pode manter empréstimos problemáticos nos balanços por mais tempo. Pela estimativa da autoridade monetária, a taxa de inadimplência do sistema financeiro seria 0,78 ponto porcentual menor em junho se os critérios anteriores estivessem em vigor. A diferença equivale a cerca de 45% da alta de 1,76 ponto porcentual observada desde dezembro de 2024.
O documento projeta que a pressão sobre a capacidade de pagamento das famílias deve continuar na maioria das modalidades de crédito ao longo do segundo semestre de 2026.
Principais informações
- Risco de calote das famílias é o maior desde 2012, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do BC
- Ativos problemáticos somavam 9,2% do crédito a pessoas físicas em junho de 2026
- Renda comprometida com dívidas chegou ao maior patamar em 21 anos
- 20,3 milhões de pessoas eram classificadas como endividadas de risco, 17% dos devedores do sistema financeiro
- Cartão de crédito tinha 12,7% da carteira em ativos problemáticos e o crédito pessoal sem garantias, quase 15%

