André Naves vê em afeto e autonomia o “espírito do tempo” que atravessa o Brasil

André Naves vê em afeto e autonomia o "espírito do tempo" que atravessa o Brasil

O defensor público regional de Direitos Humanos em São Paulo André Naves afirma, em artigo publicado na Sentido Horário, que o país vive uma mudança na condução da política cuja raiz estaria no resgate de valores ligados ao afeto, ao pertencimento comunitário e à autonomia individual. Ele associa esse movimento à ideia de "espírito do tempo".

Para ilustrar o conceito, o autor relembra a cena de 13 de outubro de 1806, quando o filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel viu Napoleão Bonaparte passar por Jena, cidade então ocupada pelas tropas francesas. Naves também cita Beethoven, que compôs a Terceira Sinfonia entre 1803 e 1804 e inicialmente deu à obra o nome de Bonaparte, retirando a dedicatória após saber que o militar havia se proclamado imperador.

Na avaliação do articulista, o espírito de uma época é maior do que qualquer pessoa e não pode ser contido. Aplicado ao Brasil, ele se manifestaria em quatro frentes: o pertencimento, expresso na família e nos laços de afeto; o propósito, entendido como o planejamento de cada vida e a ligação entre o individual e o coletivo; a autonomia, ou o desejo de protagonismo em vez da tutela estatal; e a tradição, formada por conquistas transmitidas entre gerações.

Como evidência desse movimento, Naves recorre ao levantamento global da Ipsos sobre felicidade, divulgado em 2026. Entre os brasileiros que se declaram felizes, 34% apontam como fonte sentir-se amados ou apreciados; 29% citam a família e os filhos; outros 29% mencionam sentir-se no controle da própria vida; e 27% afirmam que a vida tem sentido.

A partir desses dados, o autor sustenta que afeto e autonomia orientam o período atual e critica o que chama de Estado tutelar, que trata adultos como incapazes e toda iniciativa como suspeita. Ele ressalva, porém, que a alternativa à tutela não pode ser o abandono: sem escola, saúde, acessibilidade e condições materiais de participação na vida comum, uma pessoa não se torna autônoma. Para ele, os direitos humanos são universais e se concretizam na família que cuida, na comunidade que acolhe e na ação de cada indivíduo, cabendo ao Estado cumprir seus deveres sem determinar as escolhas alheias.

O texto conclui que Beethoven mostrou ser possível admirar o espírito de uma época sem se curvar a quem diz encarná-lo, e que a tarefa democrática do período é reconhecer a mudança e assumir o protagonismo da própria vida.

André Naves é especialista em Inclusão Social, Direitos Humanos e Economia Política e integra grupos de trabalho da Defensoria Pública da União voltados a pessoas idosas, pessoas com deficiência e pessoas em situação de rua.

Principais informações

  • André Naves defende que o "espírito do tempo" brasileiro se expressa em pertencimento, propósito, autonomia e tradição
  • O autor cita Hegel, que viu Napoleão passar em Jena em 13 de outubro de 1806, e Beethoven, que retirou o nome de Bonaparte da Terceira Sinfonia
  • Pesquisa global da Ipsos divulgada em 2026 aponta afeto, família e controle sobre a própria vida entre as fontes de felicidade dos brasileiros
  • Naves critica o Estado tutelar, mas afirma que a alternativa à tutela não é o abandono e defende a universalidade dos direitos humanos

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