57 dos 76 maiores doadores da campanha de Lula ocupam cargos no governo

Cruzamento de dados da plataforma Divulgacand, da Justiça Eleitoral, mostra que 57 dos 76 maiores doadores pessoa física da campanha de Lula (PT) à reeleição ocupam cargos no governo federal ou em estatais. Foram considerados os que contribuíram diretamente com ao menos R$ 2,5 mil.
Cinco ministros estão entre os doadores. Miriam Belchior, da Casa Civil e do conselho de administração de Itaipu, lidera com R$ 28 mil. Na sequência vêm Luiz Marinho (Trabalho), com R$ 24 mil; José Guimarães (Relações Institucionais), R$ 13 mil; Leonardo Barchini (Educação), R$ 10 mil; e Márcia Lopes (Mulheres), R$ 4 mil.
As doações dos 57 somam R$ 425 mil: R$ 355 mil em transferências bancárias e R$ 70 mil estimados em prestação de serviços. Oito deles também têm assentos em conselhos de estatais federais, o que garante remuneração extra conhecida como jeton.
O montante é pequeno frente ao total arrecadado: R$ 66,9 milhões até a consulta, dos quais R$ 65,2 milhões vieram dos fundos eleitoral e partidário repassados pelo PT. Os R$ 425 mil, porém, superam os R$ 283 mil obtidos por financiamento coletivo.
Os dados foram extraídos na quarta-feira (23) da plataforma da Justiça Eleitoral. A identificação dos doadores com cargos foi feita pelos jornalistas Caio Spechoto e Mariana Brasil.
Petistas relatam que o engajamento com a campanha cresceu nas últimas semanas diante do receio de derrota para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que avançou nas pesquisas. Das 386 doações individuais feitas diretamente à campanha, 314 ocorreram após 13 de setembro.
Sob reserva, um integrante do governo que doou disse ter transferido o dinheiro ao saber que a campanha tinha poucas contribuições. Segundo ele, em 13 de setembro houve esforço para intensificar as doações. Semanas antes, reuniões de mobilização reuniram filiados ao PT em escalões mais baixos do governo; um participante disse que não houve pressão e que os valores eram menores.
O professor da FGV e especialista em direito eleitoral Fernando Neisser afirmou que a prática é recorrente e não é irregular por si só. Ocupantes de altos cargos comissionados costumam ser próximos do projeto político do presidente e tendem a contribuir, disse. "O que seria proibido seria haver coação, pressão direta, comprovada, sobre essas pessoas".
José Guimarães negou que tenha havido recomendação para doações de ministros ou outros nomeados. "Não, [a doação] foi iniciativa minha", afirmou. A campanha de Lula também negou pedidos de recursos a integrantes do governo. "Jamais houve qualquer orientação ou pedido de doações", diz a nota.
O Ministério da Educação, pasta com mais doadores identificados, afirmou que não houve orientação, incentivo ou solicitação do órgão e que as doações são decisões estritamente pessoais. Casa Civil, Relações Institucionais, Trabalho e Mulheres divulgaram notas no mesmo sentido.
Principais informações
- 57 dos 76 maiores doadores pessoa física da campanha de Lula têm cargo no governo federal ou em estatais
- Cinco ministros estão entre os doadores; Miriam Belchior lidera com R$ 28 mil
- As doações do grupo somam R$ 425 mil, pouco frente aos R$ 66,9 milhões arrecadados pela campanha
- 314 das 386 doações individuais diretas foram feitas após 13 de setembro
- Campanha e ministérios negam orientação para doações; especialista diz que a prática não é irregular por si só

