Protestos na França reúnem até 800 mil, deixam cerca de 2 mil presos e depredam 1,5 mil comércios

Protestos na França reúnem até 800 mil, deixam cerca de 2 mil presos e depredam 1,5 mil comércios

A França enfrenta uma das maiores ondas de protestos dos últimos anos, com manifestações que reuniram mais de meio milhão de pessoas no sábado, 17, segundo o Ministério do Interior, provocaram cerca de 2 mil prisões e deixaram um rastro de destruição em diferentes cidades.

De acordo com a pasta, mais de 500 mil pessoas participaram de aproximadamente 110 marchas naquele dia. A Confederação Geral do Trabalho (CGT), uma das principais centrais sindicais do país, estimou a presença de 800 mil manifestantes.

O movimento começou com estudantes do ensino médio, que denunciam salas superlotadas, infraestrutura precária, falta de professores e funcionários e recursos insuficientes para as escolas. Os manifestantes também criticam os critérios de admissão ao ensino superior, considerados por eles excessivamente seletivos.

A mobilização ganhou dimensão nacional com a adesão de sindicatos, agricultores e grupos de esquerda insatisfeitos com a situação econômica. O aumento dos preços dos combustíveis, atribuído em parte aos efeitos da guerra com o Irã, e a elevação dos custos de produção agrícola ampliaram o alcance dos protestos. Grupos ligados ao movimento dos coletes amarelos, que mobilizou franceses há quase uma década contra os preços dos combustíveis, também aderiram aos apelos por novas manifestações.

Embora parte das mobilizações tenha ocorrido de forma pacífica, grupos violentos depredaram cerca de 1,5 mil estabelecimentos comerciais e atacaram prédios públicos. Em Limoges, no centro do país, um incêndio criminoso destruiu grande parte da prefeitura. Em Marselha, manifestantes mascarados invadiram um edifício governamental e derrubaram um busto de Marianne, símbolo da República Francesa.

A reação policial se tornou outro foco de tensão. Promotores e um órgão de fiscalização das forças de segurança investigam pelo menos 34 casos de possíveis abusos durante as manifestações, entre eles ferimentos graves em adolescentes atingidos por granadas utilizadas pela polícia.

A violência e a extensão dos danos aumentaram a pressão sobre o governo, que tenta aprovar um Orçamento de austeridade em meio ao descontentamento popular. A combinação de restrições fiscais, insatisfação com os serviços públicos e alta do custo de vida aprofundou a crise política na segunda maior economia da União Europeia.

A disputa sobre a responsabilidade pelos distúrbios passou ao centro do debate político. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu acusou integrantes da esquerda radical de estimularem a desconfiança em relação à polícia e afirmou que parte dos manifestantes violentos pertencia à chamada "ultraesquerda". O França Insubmissa, partido liderado por Jean-Luc Mélenchon, rejeitou as acusações.

Mélenchon responsabilizou o governo pela escalada dos conflitos e criticou a condução das contas públicas, dizendo nas redes sociais que o primeiro-ministro é "responsável pelo caos", por incompetência ou por uma estratégia desesperada para criar um partido da ordem que fizesse as pessoas esquecerem o fracasso nas finanças públicas. Lecornu não respondeu publicamente à acusação, segundo as informações disponíveis.

A crise também abre espaço para Marine Le Pen, líder nacionalista que busca chegar à Presidência. A insatisfação com o governo e a preocupação com a economia podem favorecer seu discurso de oposição ao establishment político francês, em um ambiente de desgaste do presidente Emmanuel Macron, impedido de concorrer a um terceiro mandato consecutivo.

Em publicação nas redes sociais, Le Pen afirmou que o país vive uma crise profunda de confiança e de autoridade que ameaça a democracia e que a França está pressionada entre a violência e a impotência. Com o governo cobrado a equilibrar as contas públicas e conter os protestos, a crise social pode influenciar o cenário eleitoral.

Principais informações

  • Ministério do Interior registrou mais de 500 mil manifestantes em cerca de 110 marchas no sábado, 17; a CGT estimou 800 mil pessoas.
  • O movimento começou com estudantes do ensino médio contra salas superlotadas, infraestrutura precária e falta de professores.
  • Cerca de 1,5 mil estabelecimentos comerciais foram depredados e prédios públicos atacados, incluindo a prefeitura de Limoges, destruída por incêndio criminoso.
  • Promotores e um órgão de fiscalização investigam ao menos 34 casos de possíveis abusos policiais.
  • O primeiro-ministro Sébastien Lecornu e Jean-Luc Mélenchon trocam acusações sobre a responsabilidade pela violência, enquanto Marine Le Pen ganha espaço no cenário eleitoral.

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