Governo prepara testes de gasolina com 35% de etanol antes de concluir avaliação da mistura atual

O Ministério de Minas e Energia deve formalizar em 18 de setembro um plano de testes para a gasolina com 35% de etanol, a chamada E35. A medida é amparada pela Lei do Combustível do Futuro, que autoriza elevar o teor até esse patamar desde que haja comprovação prévia de viabilidade técnica. A mistura de 32% entrou em vigor em 1º de agosto sem que todos os seus efeitos tivessem sido medidos.
Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), os estudos que sustentaram a passagem de E30 para E32 não incluíram ensaios de consumo e emissões feitos especificamente com a mistura de 32% — essas avaliações foram realizadas apenas com E30. Ficaram de fora também testes de longo prazo de durabilidade, corrosão e compatibilidade de materiais.
O TCU registrou que tanto o governo quanto representantes dos setores automotivo e de autopeças tinham conhecimento dessas lacunas e, ainda assim, decidiram deixar os ensaios para a fase das misturas com 35% ou mais de etanol. Apesar das falhas apontadas, o tribunal não barrou a nova gasolina, considerando haver estudos suficientes para a adoção temporária e destacando que a medida pode ser revertida caso surjam problemas no monitoramento.
A E32 tem validade de 180 dias, prorrogáveis uma vez pelo mesmo período. A gasolina premium continua com 25% de etanol.
Engenheiros com experiência no setor apontam riscos para os motores. Erwin Franieck, conselheiro da SAE Brasil, lembra que, em sistemas de injeção direta, o combustível também participa da lubrificação de componentes submetidos a pressões elevadas, como bombas e injetores. "Com certeza impacta a vida útil desses componentes. O quanto isso significa, só testando", afirma.
Gerson Borini, com mais de 30 anos na indústria automotiva, afirma que a maior presença de etanol reduz a energia entregue por litro da mistura, o que exige volume maior para obter o mesmo rendimento anterior.
A promessa de preço menor na bomba não se confirmou. Antes da entrada da E32, a gasolina comum custava em média R$ 6,55 por litro no país. Na primeira semana completa de agosto, com a nova composição nos postos, a média permanecia em R$ 6,55. Entre 6 e 12 de setembro, estava em R$ 6,53. Uma redução de dois centavos que não pode ser atribuída apenas ao teor de etanol, já que petróleo, câmbio, impostos, distribuição e margens dos postos também influenciam o preço final.
Situação semelhante ocorreu na passagem de E27 para E30, em 2025. Na semana de 20 a 26 de julho, o litro custava em média R$ 6,20; na primeira semana de agosto, durante a transição, R$ 6,19; no fim daquele mês, R$ 6,17. O governo estimava redução de até R$ 0,11 por litro, que não apareceu integralmente nos postos.
Veículos flex tendem a sentir menos o aumento, pois foram projetados para operar com etanol hidratado. As maiores dúvidas recaem sobre carros movidos exclusivamente a gasolina, especialmente os mais antigos, importados e com determinadas tecnologias de injeção. Nos testes que embasaram misturas anteriores, o Instituto Mauá de Tecnologia avaliou 16 automóveis e 13 motocicletas não flex. Renato Romio, chefe da divisão de motores do instituto, afirmou que não foram observadas diferenças relevantes em desempenho, emissões ou funcionamento. Borini questionou se ensaios relativamente curtos seriam capazes de identificar desgaste que só apareceria após dezenas de milhares de quilômetros.
O desenho definitivo dos novos testes depende da publicação de uma portaria. Desde 2024, o ministério reúne ANP, Anfavea, Abraciclo, Sindipeças, fabricantes de componentes, representantes do setor de combustíveis e instituições de pesquisa para definir os veículos que representarão a frota e as condições necessárias de repetibilidade e confiabilidade. Estão em discussão desempenho, dirigibilidade, consumo, emissões, partida a frio e compatibilidade com diferentes tecnologias automotivas. Quantidade de veículos, modelos, quilometragem e duração dos ensaios ainda não foram divulgados.
A ANP participa da Rede de Pesquisa Combustível do Futuro, aprovada no fim de 2025 e com duração prevista até dezembro de 2027, que estuda misturas maiores de etanol na gasolina e de biodiesel no diesel. Concluídos os estudos, caberá ao Conselho Nacional de Política Energética decidir sobre novo aumento do percentual de etanol.
Principais informações
- Ministério de Minas e Energia deve formalizar em 18 de setembro o plano de testes da gasolina com 35% de etanol.
- TCU apontou que a adoção da E32 não teve ensaios específicos de consumo e emissões, feitos apenas com E30.
- Testes de longo prazo de durabilidade, corrosão e compatibilidade de materiais ficaram para a fase das misturas com 35% ou mais.
- Preço médio da gasolina comum ficou em R$ 6,55 antes da E32 e em R$ 6,53 entre 6 e 12 de setembro.
- Decisão final sobre novo aumento do teor de etanol cabe ao CNPE, após estudos previstos até dezembro de 2027.

