Canhotos adaptam instrumentos e aprendem viola em projeto de cultura caipira em Presidente Prudente

Alunos canhotos do projeto Canta Viola, que incentiva a cultura caipira em Presidente Prudente (SP), adaptam os instrumentos para aprender a tocar viola. Como a maioria dos instrumentos de corda é fabricada para destros, eles buscam alternativas para acompanhar as aulas.
Canhoto nato, o policial militar aposentado Arlindo Dionísio Júnior, 55, entrou no projeto em janeiro deste ano e trocou a ordem das cordas para conseguir tocar. Ele diz que uma das motivações foi o fato de as filhas terem aprendido violão desde crianças e o desejo de tocar junto com elas. Ele também encomendou uma dedeira sob medida para canhoto, usada nos acordes mais específicos, porque a versão feita para destros machuca o dedo com o tempo.
A ideia da dedeira foi colocada em prática pelo pai de Heitor Mariano Schisbelgs, 17, outro aluno do projeto. Único canhoto da família, ele afirma que a música é onde consegue relaxar e extravasar. Ele se acostumou a tocar com a mão direita e se tornou ambidestro em algumas atividades.
A personal trainer Camila Mincucine Gava, 37, que também tem um irmão canhoto, afirma que a dificuldade foi diminuindo com o tempo. Ela não vê desafios atuais em tocar por ser canhota, mas lembra que, ao começar na adolescência, o processo era mais complexo por causa da coordenação motora fina.
Nádia Hely Cruz Garcia, 37, supervisora administrativa no projeto há um ano e oito meses, relata que ser canhota sempre foi um desafio na música. Mesmo assim, ela se desafiou a tocar na posição de destra e diz que hoje consegue.
Professor do projeto há mais de dez anos, Haroldo Lobo Garcia, 44, incentiva os alunos a tocar da forma que considerarem mais confortável. Ele afirma ter aprendido a ensinar do jeito dos canhotos e diz que hoje as adaptações são feitas com tranquilidade.
A neurologista Stella Kawano Zaupa explica que os dois hemisférios do cérebro trabalham juntos, mas cada um comanda principalmente o lado oposto do corpo. Em destros, a mão dominante responde ao hemisfério esquerdo; em canhotos, ocorre o contrário. A linguagem fica concentrada no hemisfério esquerdo na maioria dos destros, enquanto entre os canhotos há mais variação.
Segundo a especialista, ser canhoto é uma característica de como o sistema nervoso se organiza, não uma doença nem uma limitação. Ela rebate mitos, como o de que canhotos usariam mais o lado direito do cérebro e seriam mais criativos, ou de que teriam o cérebro invertido. Afirma ainda que ser canhoto tem influência genética, mas isso não é determinante sozinho.
Stella orienta os pais a deixarem a preferência manual da criança se manifestar sozinha, sem forçar a troca de mão. Ela alerta que a perda repentina de habilidade, com fraqueza ou falta de coordenação em um dos lados do corpo, não é mudança de lateralidade e exige avaliação médica.
Principais informações
- Alunos canhotos do projeto Canta Viola, em Presidente Prudente (SP), adaptam instrumentos para aprender viola.
- Arlindo Dionísio Júnior trocou a ordem das cordas e encomendou uma dedeira sob medida para canhoto.
- Neurologista afirma que ser canhoto não é doença nem limitação e que a lateralidade deve se manifestar naturalmente.
- Especialista rebate mitos sobre criatividade e 'cérebro invertido' dos canhotos.
- Professor diz adaptar o ensino para atender os alunos canhotos do projeto.

