Trump promete US$ 1 bilhão à Colômbia após posse de aliado de direita

Abelardo de la Espriella adere à aliança de segurança dos Estados Unidos e anuncia “guerra total” contra cartéis; guinada amplia o isolamento da esquerda na América Latina
Abelardo de la Espriella assume Presidência da Colômbia com promessa de “guerra total” contra o crime e aproximação com os EUA
Poucas horas após Abelardo de la Espriella assumir a Presidência da Colômbia, os Estados Unidos anunciaram um pacote de segurança de US$ 1 bilhão destinado ao país. Admirador declarado do presidente norte-americano Donald Trump, o novo chefe do Executivo colombiano iniciou o mandato prometendo uma “guerra total” contra cartéis, guerrilhas e outras organizações armadas que atuam em território colombiano.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos informou que os recursos terão como objetivo apoiar iniciativas conjuntas entre os dois governos, especialmente no combate ao crime organizado, ao tráfico de drogas e à imigração ilegal.
O anúncio sinalizou uma mudança significativa na relação entre Bogotá e Washington. Durante o governo de Gustavo Petro, Trump criticou diversas vezes a política de segurança adotada pela Colômbia e responsabilizou o país pelo fluxo de drogas e migrantes em direção aos Estados Unidos.
De la Espriella também anunciou que a Colômbia passará a integrar o Escudo das Américas, uma parceria de segurança criada durante o governo Trump. Washington comemorou a adesão e avaliou que a agenda econômica do novo governo colombiano poderá abrir espaço para a ampliação do comércio e o aprofundamento das relações entre os dois países.
Além da aproximação com os Estados Unidos, o novo presidente colombiano prometeu fortalecer a cooperação militar com os governos norte-americano e israelense.
Nova relação com Israel
A aproximação com Israel representa outra mudança em relação ao governo anterior. Durante sua gestão, Gustavo Petro rompeu relações diplomáticas com o país em razão da ofensiva militar em Gaza e adotou uma posição de forte crítica às ações israelenses no conflito.
Com a mudança de governo, De la Espriella sinaliza uma nova orientação para a política externa colombiana, com maior aproximação de Israel e dos Estados Unidos.
A estratégia de Trump para a América Latina
O apoio financeiro anunciado para a Colômbia reforça uma estratégia adotada por Donald Trump em seu segundo mandato, baseada no fortalecimento de governos considerados aliados e na pressão sobre administrações que Washington considera adversárias.
A Argentina, governada por Javier Milei, recebeu um pacote de apoio de US$ 20 bilhões do Tesouro norte-americano. Trump chegou a afirmar que a posição dos Estados Unidos em relação ao país poderia ser diferente caso o presidente argentino fosse substituído por um governo de esquerda.
No sentido contrário, Cuba vem sendo alvo de ameaças e pressões recorrentes do governo norte-americano. Trump já sinalizou que o regime comunista cubano poderia receber tratamento semelhante ao adotado em relação ao governo venezuelano.
A política externa norte-americana para a região também provocou críticas do governo de Gustavo Petro, especialmente diante das ações de Washington contra organizações e governos considerados ligados ao narcotráfico.
“A era do Tigre”
Advogado, empresário e comunicador, Abelardo de la Espriella construiu sua imagem política utilizando o apelido “El Tigre”. Durante a campanha eleitoral, apresentou-se como uma alternativa aos grupos tradicionais da política colombiana e prometeu governar sem a participação das antigas elites políticas.
O novo presidente escolheu realizar sua cerimônia de posse em Cali, no oeste da Colômbia, em vez de Bogotá. A decisão foi apresentada como um gesto simbólico de ruptura com as tradições políticas e com a concentração de poder na capital.
A trajetória de De la Espriella também foi marcada por uma atuação profissional como advogado de defesa de paramilitares ligados ao narcotráfico. Antes de ingressar na política eleitoral, ele havia construído sua carreira no setor privado e vivido e trabalhado durante anos em Miami. Em 2023, tornou-se cidadão norte-americano.
Durante a campanha, o então candidato adotou uma postura de segurança rigorosa. Em razão das ameaças que recebeu, apareceu diversas vezes protegido por estruturas de segurança, incluindo vidro blindado e colete à prova de balas.
Promessa de combate direto às organizações criminosas
Em seu primeiro pronunciamento oficial como presidente, diante de militares, De la Espriella prometeu enfrentar diretamente os grupos insurgentes e organizações criminosas.
O novo presidente afirmou que pretende recuperar o controle territorial, reconstruir o país e defender as instituições democráticas. Em uma de suas declarações, afirmou que não haverá espaço no território colombiano onde criminosos possam se sentir seguros.
A estratégia anunciada aproxima o novo governo colombiano das políticas adotadas por presidentes como Nayib Bukele, de El Salvador, e Daniel Noboa, do Equador, que ampliaram a participação das Forças Armadas no combate às organizações criminosas e adotaram medidas excepcionais de segurança.
Essas políticas conquistaram apoio de parte da população dos dois países, mas também foram alvo de críticas de organizações de direitos humanos.
Novo governo promete encerrar política da “paz total”
A política de segurança anunciada por De la Espriella representa uma mudança em relação à estratégia adotada pelo ex-presidente Gustavo Petro, conhecida como “paz total”.
O projeto de Petro priorizava negociações com guerrilhas e organizações armadas, além de iniciativas destinadas a estimular agricultores a abandonar o cultivo de coca. A proposta buscava enfrentar o conflito colombiano combinando medidas sociais, econômicas e negociações políticas com grupos armados.
Críticos da estratégia afirmam que os resultados ficaram abaixo das expectativas. Nos últimos anos, houve crescimento do número de integrantes de organizações armadas e aumento dos confrontos entre grupos rivais em diferentes regiões do país.
Na fronteira com a Venezuela, confrontos entre facções chegaram a provocar o deslocamento de dezenas de milhares de pessoas.
Agora, De la Espriella pretende substituir a política de negociação por uma estratégia baseada no confronto direto. O pacote de US$ 1 bilhão anunciado pelos Estados Unidos deverá contribuir para colocar essa nova política de segurança em prática.
Colômbia acompanha guinada à direita na América Latina
A chegada de De la Espriella ao poder ocorre em meio a um movimento de fortalecimento de governos de direita em diferentes países latino-americanos.
Com a mudança de governo na Colômbia e a ascensão de forças políticas conservadoras em outros países da região, o cenário político latino-americano passa por uma transformação que reduz o espaço de governos alinhados à esquerda.
A mudança também terá impacto sobre as relações com o Brasil, especialmente diante da disputa presidencial brasileira e da crescente polarização política.
A cerimônia de posse em Cali contou com a presença de autoridades internacionais, entre elas o procurador-geral dos Estados Unidos, Todd Blanche, e o presidente da Fifa, Gianni Infantino, acompanhado pelo chefe da Conmebol.
A Colômbia inicia, dessa forma, uma nova etapa política marcada por duas prioridades anunciadas pelo novo governo: ampliar o combate às organizações criminosas e reconstruir uma relação estratégica com os Estados Unidos.
O primeiro sinal dessa nova parceria veio poucas horas depois da posse, com o anúncio de US$ 1 bilhão em recursos para segurança.

