Aroma de carro zero-quilômetro é projeto de marketing sensorial e segurança química

O cheiro característico de um veículo zero-quilômetro não é acaso: resulta de um projeto deliberado da indústria automotiva que combina marketing sensorial e controle de segurança química, com equipes dedicadas ao desenvolvimento e à aprovação de cada aroma antes do lançamento do modelo.
O trabalho envolve osmólogos, profissionais que avaliam se o odor é agradável e cumpre requisitos técnicos. O objetivo é construir uma identidade olfativa capaz de diferenciar as marcas no mercado.
No Brasil, a especialista em avaliação sensorial automotiva Maria de Lourdes Feitosa atua nessa área. Segundo ela, o método permite identificar e caracterizar a memória olfativa de cada peça que compõe o cheiro total do automóvel, o que possibilita um controle detalhado do conjunto.
Além da percepção sensorial, o processo exige que fornecedores apresentem laudos comprovando que as peças não foram fabricadas com substâncias altamente tóxicas. Benzeno e tolueno estão entre os compostos que devem ser evitados por serem prejudiciais ao organismo.
A preocupação representa uma evolução histórica: até os anos 1960, o odor dos carros não era agradável e vinha de compostos químicos nocivos.
A partir dos anos 2000, as montadoras ampliaram o investimento em marketing sensorial. Algumas marcas usam difusores patenteados que liberam fragrâncias específicas na cabine, como combinações de madeiras e flores; outras apostam em tecnologias de tratamento de ar com cartuchos de fragrâncias substituíveis.
Para Vanessa Clarizia Marchesin, professora de Psicologia do Consumidor e Neurociências da ESPM, a indústria identificou que o cheiro funciona como sinal de que o produto é novo, limpo e valioso. No marketing, o aroma atua como âncora sensorial: ao ser associado a uma experiência de posse e status, vira mecanismo de julgamento de qualidade pelo consumidor.
Segundo a professora, o aroma ativa emoções e memórias antes mesmo do reconhecimento consciente do que se está sentindo. Memórias ligadas ao olfato tendem a ser mais antigas, emocionalmente mais intensas e mais resistentes ao esquecimento do que as visuais ou auditivas. O efeito envolve o chamado condicionamento clássico de valência positiva, pela repetição do pareamento entre aroma e experiências como o primeiro carro ou viagens na infância. Assim, o consumidor recupera as emoções vividas e o cheiro de carro novo se torna gatilho psicológico de satisfação e qualidade.
Principais informações
- O cheiro de carro novo é desenvolvido e aprovado por especialistas antes do lançamento do modelo.
- Osmólogos avaliam se o aroma é agradável e cumpre requisitos técnicos.
- Fornecedores precisam comprovar que não usaram substâncias como benzeno e tolueno.
- Até os anos 1960, o odor dos carros vinha de compostos químicos nocivos.
- Desde os anos 2000, montadoras usam difusores e cartuchos de fragrância como estratégia de marca.

