Em Santo Anastácio e na região de Presidente Prudente, o Farmácia Popular acaba com a loteria do preço dos remédios

Por Humberto Tobé, Fátima Christine
Pesquisa do Procon-SP no polo regional encontrou o mesmo medicamento para diabetes com diferença de até 348% entre drogarias; nas farmácias credenciadas, os 41 itens do programa saem de graça
Em maio de 2024, o Procon-SP percorreu seis drogarias de Presidente Prudente e anotou os preços de 39 medicamentos. Um dos resultados chama atenção: a glibenclamida, remédio para diabetes que faz parte da lista do Farmácia Popular, custava de R$ 2,10 a R$ 9,41 a caixa com 30 comprimidos, uma diferença de 348% entre a mais barata e a mais cara. A pesquisa deixou de fora os descontos do programa federal, justamente para mostrar o preço que o consumidor comum paga.
Para quem retira o mesmo remédio pelo Programa Farmácia Popular do Brasil, do Ministério da Saúde, essa variação não existe: o preço é sempre zero. Desde fevereiro de 2025, os 41 itens do programa são gratuitos nas farmácias credenciadas de todo o país, com documento com foto, CPF e receita válida, do SUS ou de médico particular. O valor de uma caixa pode parecer pequeno, mas o tratamento é contínuo e raramente vem sozinho. Pelas estimativas do Ministério, a gratuidade representa economia de R$ 1.040 por ano no tratamento do diabetes e de até R$ 2.080 para duas pessoas com hipertensão.
Em Santo Anastácio, cidade de 17.963 habitantes segundo o Censo 2022, na região da Alta Sorocabana, a prefeitura também usa o programa como ferramenta de cuidado. Em março de 2024, divulgou à população o Programa Dignidade Menstrual, que garante absorventes gratuitos nas farmácias credenciadas para pessoas inscritas no CadÚnico que atendem aos critérios do programa, com autorização emitida pelo aplicativo Meu SUS Digital.
A macrorregião de Presidente Prudente reúne 31 municípios no extremo oeste paulista, muitos deles pequenos e com economia ligada ao campo. Na lista de setembro de 2026, três cidades da região tinham vagas abertas para novas farmácias credenciadas: Alfredo Marcondes, Caiabu e Sandovalina. A abertura de vagas segue a Portaria GM/MS nº 12.091, publicada em agosto de 2026, que orienta a expansão do programa pela análise dos vazios assistenciais.
O contraste ajuda a entender o peso do programa. Sem ele, cada paciente estaria sujeito à variação de preços entre drogarias, e quem vive longe do centro ou não tem como pesquisar pagaria mais. Somados os tratamentos de uma família de quatro pessoas, a conta pode chegar a R$ 8,8 mil por ano, segundo o Ministério da Saúde. É dinheiro que, em muitas casas da região, simplesmente não existe. A consequência seria o abandono do tratamento, com AVC, infarto e complicações do diabetes chegando aos hospitais regionais.
A nova portaria também protege o programa contra irregularidades. As farmácias precisam renovar a participação a cada dois anos, cada retirada passa por autorização eletrônica em tempo real e as multas podem chegar a 20% nos casos mais graves, com punição maior para reincidentes. Para o usuário, nada muda no balcão.
O alcance do programa é amplo. Em 2025, 27,3 milhões de pessoas foram atendidas no país; em São Paulo, mais de 6 milhões usaram o programa em 2024. Mais de 63% dos usuários são mulheres, e cerca de sete em cada dez têm 60 anos ou mais.
Em Santo Anastácio e em toda a região de Presidente Prudente, o Farmácia Popular troca a loteria do preço pela certeza do direito. É o SUS garantindo que o tratamento não dependa da sorte de encontrar a farmácia mais barata.
Sobre os autores:
Humberto Tobé é Pós-Graduado em Gestão da Saúde Pública, trabalha na interlocução com prefeitos, vereadores, gestores municipais e representantes da área da saúde dos municípios paulistas.
Fatima Crhistine é mestranda em Políticas Públicas pela Universidade Católica de Brasília (UCB), graduada em Economia e Pedagogia, com pós-graduação em Educação Parental e Socioemocional. Servidora Pública Federal cedida da Universidade Federal do ABC para a Secretaria Executiva do Ministério da Saúde.

