Vorcaro disse ter ouvido de ‘cara da PF’ que poderia ‘cometer o crime que for’, mostram mensagens

Mensagens captadas por investigadores do caso Banco Master mostram o banqueiro Daniel Vorcaro dizendo ter ouvido de quem identificou como “cara da PF” que poderia “cometer o crime que for”. Os diálogos com o empresário mineiro Flávio Carneiro foram trocados na tarde de 26 de abril de 2024.
A conversa é do mesmo dia em que, segundo as investigações, ocorria uma degustação de charutos e uísque Macallan no clube George, em Mayfair, Londres. Dados extraídos do celular de Vorcaro registraram custo de US$ 640.831,88, cerca de R$ 3,3 milhões pelo câmbio da época.
As mensagens se referem ao I Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado de 24 a 26 de abril de 2024 na capital britânica, com a presença do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, além dos ministros do STF Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Cinco ministros do STJ e três do TSE também participaram.
Também estiveram no fórum o então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e o chefe da AGU, Jorge Messias, que não participou do convescote. Os painéis trataram de mecanismos de aprimoramento do processo eleitoral e de riscos e benefícios da inteligência artificial para as eleições e a indústria brasileira.
Nas mensagens, Vorcaro descreveu empolgação entre os presentes. Carneiro respondeu em tom de brincadeira, mencionando uma suposta “lei da amarra”. Foi nesse contexto que o banqueiro afirmou que o “cara da PF” já havia dito que ele poderia “cometer o crime que for”.
Segundo as investigações, o fórum foi organizado pelo grupo Voto, comandado pela empresária Karim Miskulin, mas a maior parte das despesas foi paga por Vorcaro, que fazia questão de não aparecer como patrocinador, conforme relatos dos próprios produtores do evento.
Procurada, a PF não se manifestou. Flávio Carneiro disse não se lembrar das mensagens nem do contexto da conversa.
Em relatório da PF que identificou 52 mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, divulgado no início do mês por André Mendonça, o banqueiro menciona a necessidade de ter “proteção” de “Andrei e Paulo”, referência ao diretor-geral da PF e ao PGR. Em uma delas, pediu ajuda a Moraes para adiar uma operação, uma semana antes de sua primeira prisão.
Carneiro atuou como uma espécie de preposto de Vorcaro na estratégia de montar um conglomerado midiático antes da derrocada do Master. Segundo relato do publicitário Thiago Miranda, ele constituiu sociedade formal com a revista IstoÉ e os sites Brazil Journal e PlatôBR e tentou comprar o portal Léo Dias, do qual Miranda foi CEO.
No dia seguinte às mensagens, o site Poder 360 revelou que o fórum jurídico de Londres havia sido patrocinado pelo Banco Master, que à época tinha casos de interesse no STF e no STJ. Carneiro perguntou se os magistrados haviam ficado mais tranquilos, e Vorcaro respondeu que eles não estavam dando atenção.
Principais informações
- Mensagens apreendidas mostram Vorcaro dizendo ter ouvido de um “cara da PF” que poderia “cometer o crime que for”.
- Os diálogos com Flávio Carneiro foram trocados em 26 de abril de 2024, durante fórum jurídico em Londres.
- O evento teve a presença do diretor-geral da PF, do PGR e de ministros do STF, do STJ e do TSE.
- As investigações apontam que a maior parte das despesas do fórum foi custeada por Vorcaro, que não queria aparecer como patrocinador.
- A PF não se manifestou; Carneiro disse não se lembrar das mensagens nem do contexto da conversa.

