Perícia afirma que Dark Horse não recebeu dinheiro público, mas origem dos recursos ainda é alvo de investigação

Laudo contratado pela produtora aponta que os valores usados na produção do filme sobre Jair Bolsonaro eram privados e tiveram movimentação formal; Polícia Federal, porém, investiga possíveis conexões entre recursos públicos e a produtora
Um laudo de perícia privada contratado pela Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse, afirma que a produção da cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro não utilizou recursos públicos, incentivos fiscais ou valores provenientes da Lei Rouanet.
Segundo o documento, o filme teve um custo total de aproximadamente US$ 13,39 milhões, o equivalente a cerca de R$ 75,2 milhões na cotação utilizada pela própria perícia. O levantamento considera despesas realizadas no Brasil e nos Estados Unidos.
A conclusão do laudo é de que os recursos empregados na produção eram de origem privada e que os pagamentos identificados ocorreram por meios formais e rastreáveis.
A conclusão, entretanto, não encerra a investigação policial. A Polícia Federal apura se parte dos recursos que chegaram à produtora pode ter relação indireta com dinheiro público proveniente de emendas parlamentares.
O que diz a perícia
O trabalho foi realizado pelo Instituto de Perícia Investigativa (IPI), a pedido da defesa da Go Up Entertainment.
Segundo o documento, os gastos identificados entre junho de 2025 e junho de 2026 somaram US$ 13.393.081,29.
Desse total, aproximadamente US$ 3,73 milhões correspondem a despesas realizadas no Brasil, enquanto outros US$ 9,66 milhões foram gastos na produção nos Estados Unidos.
Na conversão utilizada no laudo, o valor total corresponde a aproximadamente R$ 75,18 milhões.
A perícia afirma não ter identificado utilização de dinheiro público, incentivos fiscais ou recursos da Lei Rouanet na produção.
Recursos teriam vindo de fundo nos Estados Unidos
O laudo aponta que o financiamento da produção esteve relacionado ao Havengate Development Fund LP, fundo sediado nos Estados Unidos.
Segundo a perícia, o fundo celebrou um contrato de investimento com a produção em 24 de fevereiro de 2025.
Os valores aportados pelo fundo, de acordo com o documento, correspondem exatamente ao montante identificado como custo total da produção.
A perícia afirma ainda que os recursos foram movimentados por canais formais e que os pagamentos relacionados à produção puderam ser identificados documentalmente.
Mas há uma questão importante sobre a origem do dinheiro
Apesar de afirmar que os recursos recebidos pela produtora eram privados, a perícia não rastreou completamente a origem anterior do dinheiro que chegou ao fundo Havengate.
Essa é uma das principais controvérsias envolvendo o caso.
O laudo consegue acompanhar os valores a partir do fundo utilizado no financiamento e identificar pagamentos relacionados à produção, mas não apresenta uma investigação completa sobre a origem econômica inicial dos recursos.
Essa diferença é importante: dizer que o dinheiro recebido pela produtora era privado não é necessariamente o mesmo que demonstrar toda a origem anterior desse dinheiro.
Polícia Federal investiga possível uso indireto de dinheiro público
Enquanto a perícia contratada pela produtora aponta ausência de recursos públicos, a Polícia Federal trabalha com outra linha de investigação.
A PF apura se aproximadamente R$ 750 mil transferidos para a Go Up Entertainment podem ter origem em recursos públicos provenientes de emendas parlamentares.
A suspeita surgiu a partir de movimentações envolvendo o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização presidida por Karina Ferreira da Gama, que também é responsável pela Go Up Entertainment.
Segundo a investigação, o ICB recebeu R$ 2 milhões provenientes de duas emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP).
A movimentação de R$ 750 mil está no centro da apuração
De acordo com a investigação, empresas relacionadas a um mesmo grupo receberam aproximadamente R$ 700 mil do Instituto Conhecer Brasil entre fevereiro e março de 2025.
Meses depois, entre novembro e dezembro, durante o período de produção do filme, outra empresa ligada ao mesmo grupo, a NTT Brasil, transferiu R$ 750 mil para a Go Up Entertainment.
Para a Polícia Federal, a coincidência entre valores, empresas e datas merece investigação.
A corporação, porém, reconhece que os elementos disponíveis não permitem afirmar que os R$ 750 mil tenham origem direta nos valores recebidos pelo instituto por meio das emendas.
Ou seja, trata-se de uma hipótese investigativa, e não de uma conclusão definitiva de que dinheiro público tenha sido utilizado no filme.
Mário Frias também é investigado
O deputado federal Mário Frias, que participou do governo Jair Bolsonaro como secretário especial de Cultura, é uma das figuras centrais da investigação.
Segundo a Polícia Federal, Frias transferiu aproximadamente R$ 645,4 mil diretamente para a Go Up Entertainment em um período inferior a dois meses.
A PF considera o valor incompatível com os rendimentos mensais declarados pelo parlamentar, de aproximadamente R$ 44 mil, e também questiona a existência de créditos suficientes em suas contas para justificar os repasses.
Para os investigadores, essa movimentação pode indicar uma participação mais direta do parlamentar no fluxo financeiro analisado.
Frias nega irregularidades e afirma que as emendas parlamentares foram destinadas a projetos de interesse social.
Operação Make Up aprofundou as investigações
As suspeitas levaram à Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal em 10 de setembro.
A operação cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.
Entre os alvos estavam Mário Frias e Karina Gama.
A investigação apura possíveis crimes como peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes relacionados a contratos públicos.
STF determinou levantamento do sigilo
O caso ganhou nova dimensão depois que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o levantamento do sigilo de documentos relacionados à investigação.
O material compartilhado pela Polícia Civil de São Paulo reúne aproximadamente 5 mil páginas, além de dispositivos eletrônicos apreendidos durante a apuração.
No despacho, Dino afirmou que os elementos reunidos indicariam, no campo das hipóteses investigativas, a possibilidade de um esquema envolvendo recursos públicos e empresas relacionadas à produção do filme.
O ministro também determinou o compartilhamento do material com a Polícia Federal.
Perícia e investigação apresentam conclusões diferentes
O caso passou a apresentar, portanto, duas narrativas distintas.
O que afirma a perícia contratada pela produtora
- Não foram identificados recursos públicos na produção.
- Não foram identificados incentivos fiscais ou recursos da Lei Rouanet.
- O custo total teria sido de aproximadamente US$ 13,39 milhões.
- Os recursos utilizados pela produção eram privados.
- Os pagamentos ocorreram por meios formais e rastreáveis.
O que investiga a Polícia Federal
- Possível circulação de recursos públicos entre empresas ligadas ao Instituto Conhecer Brasil.
- Possível relação entre esses valores e os R$ 750 mil transferidos para a produtora.
- Transferências de R$ 645,4 mil feitas por Mário Frias à Go Up.
- Possíveis conexões entre emendas parlamentares e empresas relacionadas à produção.
É importante destacar que a investigação policial ainda está em andamento e as suspeitas não equivalem a uma condenação ou comprovação definitiva de crime.
Defesa da produtora nega irregularidades
A defesa de Karina Gama considera positiva a decisão de retirar o sigilo das investigações.
Em manifestação divulgada após a decisão de Flávio Dino, a defesa afirmou que a produtora não cometeu irregularidades e que a abertura dos autos permitirá que os fatos sejam analisados de forma mais ampla.
A estratégia da defesa é utilizar a transparência dos documentos para demonstrar a origem e a movimentação dos recursos utilizados na produção.
Filme também está ligado a outro inquérito no STF
O financiamento de Dark Horse é objeto de mais de uma investigação no Supremo Tribunal Federal.
Uma delas está relacionada a possíveis contatos de Flávio Bolsonaro com o empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, para obter recursos destinados ao filme.
Flávio Bolsonaro não é investigado no inquérito que resultou na Operação Make Up, mas aparece em outra apuração relacionada ao financiamento da produção.
A defesa e os envolvidos negam irregularidades.
O que ainda precisa ser esclarecido
O ponto central da investigação continua sendo a origem definitiva de determinados recursos.
A perícia privada conseguiu demonstrar, segundo seu próprio laudo, como os valores chegaram à produção e como foram gastos. A Polícia Federal, entretanto, tenta descobrir se parte do dinheiro que circulou por empresas ligadas à produtora teve origem, direta ou indiretamente, em recursos públicos.
Por isso, os dois documentos não necessariamente respondem exatamente à mesma pergunta.
A perícia concentra-se na movimentação e nos gastos relacionados à produção. A investigação policial procura reconstruir uma cadeia financeira mais ampla.
Caso ainda está longe de uma conclusão
O filme Dark Horse, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro e tem Jim Caviezel no papel principal, acabou se transformando em objeto de uma disputa política e jurídica muito maior do que a própria produção cinematográfica.
De um lado, a perícia apresentada pela produtora afirma que não houve utilização de dinheiro público e que os recursos empregados eram privados e rastreáveis.
De outro, a Polícia Federal investiga possíveis conexões entre empresas ligadas à produtora e recursos provenientes de emendas parlamentares.
Até que as investigações sejam concluídas, não é possível afirmar definitivamente que dinheiro público foi utilizado na produção do filme.
O que existe, neste momento, são conclusões de uma perícia privada e, paralelamente, suspeitas investigadas pelas autoridades policiais e pelo Supremo Tribunal Federal.
A definição sobre a origem dos recursos dependerá da análise completa dos documentos financeiros, dos dados bancários e dos demais elementos reunidos durante a investigação.

