Guerra infinita: Marvel vs. DC

Marvel vs. DC: A batalha entre as duas gigantes responsáveis pelos super-heróis mais populares do mundo não é recente, mas volta a provocar os fãs com a chegada ao streaming de novas séries e filmes

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NOVA GERAÇÃO A série “Falcão e o Soldado Invernal”: Marvel matou personagens clássicos para investir em novos heróis (Crédito: Divulgação)

Se algum dia o planeta Terra for atacado por vilões de outras galáxias, estaremos perdidos: Super-Homem e Batman nunca se unirão ao Homem de Ferro e a Thor para salvar a humanidade. Isso não está nos planos porque a DC Comics e a Marvel, as duas poderosas empresas responsáveis pelos super-heróis mais populares do mundo, estão em guerra desde os anos 1930. Com tantos músculos em questão, é bom deixar claro que essa batalha de gigantes se dá apenas na busca pela audiência. Nesse item, é possível dizer que, apesar do aparente equilíbrio de força entre os personagens, os superpoderes corporativos da Marvel andam bem mais eficazes.

LIGA DA JUSTIÇA A nova versão de Zack Snyder: bastidores da produção dariam um belo filme (Crédito:Divulgação)

A maior prova disso são os lançamentos recentes. Na última década, a Marvel conseguiu emplacar três filmes no ranking das dez maiores bilheterias de todos os tempos: “Ultimato” (2019), “Guerra Infinita” (2018) e “Avengers” (2012), três franquias estreladas pelos Vingadores, grupo que reúne seus heróis mais famosos. Mesmo assim, não pensou duas vezes antes de decidir “matar” alguns dos seus personagens mais populares, como o Homem de Ferro e o Capitão América. O objetivo é investir pesado na nova geração, por meio das séries “Falcão e o Soldado Invernal” e “Wandavision”.

Enquanto isso, na Sala da Justiça, a DC permanece refém não só dos tradicionais Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha, mas também do diretor que ganhou status de super-herói entre os fãs: Zack Snyder. A história por trás da nova versão de “Liga da Justiça” daria um ótimo filme. Snyder começou a trabalhar na produção em 2017, mas foi afastado por divergências com a DC e um episódio trágico: a morte de sua filha durante a filmagem. Joss Whedon, diretor de dois filmes da franquia “Vingadores”, da Marvel, foi chamado às pressas e concluiu o filme, mas o resultado foi um fracasso de público e crítica. Fiéis ao estilo “dark” de Snyder, os fãs se movimentaram na internet para exigir que a Warner o deixasse apresentar sua visão.

A empresa sucumbiu à pressão – e “Liga da Justiça de Zack Snyder” acaba de chegar ao streaming com a versão original do diretor em um filme com quatro horas de duração. É um sucesso, mas Snyder já foi avisado pelos chefões do estúdio: será sua última colaboração para a saga de Super-Homem e companhia. A DC corre agora atrás do público jovem, mas esses projetos só chegam às telas no final de 2021 (“Esquadrão Suicida 2”), e em 2022, com filmes estrelados por Zattana e Batgirl.

POP “Esquadrão Suicida”: aposta da DC para o público jovem (Crédito:Divulgação)

Na Marvel o clima é de tranquilidade. Seus projetos mais recentes, as séries “Falcão e o Soldado Invernal”, com o novo Capitão América, e “Wandavision”, que mostra a origem da Feiticeira Escarlate, foram bem recebidas. A empresa aproveitou para anunciar as estreias de suas próximas atrações: o filme da “Viúva Negra” e a série “Loki”, sobre o irmão de Thor, chegam ao streaming em maio. E a lista até o fim do ano é longa: os filmes “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”, “Eternos” e “Homem-Aranha 3”, além dos seriados “Whaf if…?” e “Gavião Arqueiro”.

A Marvel também vai bem no conteúdo autorreferente. A série documental “616” (Disney+) mostra todos os bastidores da empresa, do making of de uma HQ ao projeto que adapta roteiros a produções teatrais em escolas públicas nos EUA.

SITCOM “Wandavision”: Marvel inovou com formato de época (Crédito:Divulgação)

A inovação é uma característica explorada desde que Stan Lee assumiu o controle da empresa e mudou o nome para Marvel nos anos 1960 – antes ela se chamava Timely Comics. Ao contrário da DC, cujos personagens eram munidos de super-poderes invencíveis, as novas criações passaram a ser mais humanas e próximas dos leitores. O processo criativo também era diferente das outras produtoras, graças ao “Método Marvel”. O conceito é simples: enquanto nas editoras tradicionais as tarefas são bem separadas entre roteiristas e desenhistas, na Marvel essa barreira era fluída, permitindo mais liberdade aos artistas e uma relação mais equilibrada entre eles. Parece pouca coisa, mas isso revolucionou toda a indústria, uma vez que os heróis da Marvel passaram a se expressar com complexidade e reflexões pessoais profundas, não mais apenas por meio de diálogos.

Com o fechamento dos cinemas, a disputa no último ano têm ocorrido nas plataformas de streaming. As duas empresas pertencem a grupos ainda maiores: a Marvel foi comprada pela Disney em 2009 e suas produções estão na Disney+; a DC foi comprada pela Warner em 1967 e pode ser vista na HBO Max – cuja audiência é bem menor.

Rivalidade

O curioso dessa relação é que a Marvel quase comprou a DC – e o contrário também por pouco não ocorreu. Segundo o livro “Marvel Comics” (2012), a DC ofereceu seus títulos para a concorrente em 1984, quando passava por dificuldades. A Marvel recusou, alegando que personagens como Super-Homem e Batman estavam desgastados. Na década de 1990 veio o troco: uma crise financeira levou a Marvel a negociar com outras empresas personagens como Homem-Aranha e X-Men, que foram finalmente adquiridos pelos estúdios Sony e Fox, respectivamente.

O “combate” mais direto entre as gigantes, porém, foi pelo próprio nome. O motivo foi o super-herói Capitão Marvel, que pertencia à DC nos anos 1950. Quando ele perdeu popularidade, a empresa deixou de renovar seus direitos de imagem e a Marvel aproveitou para registrá-lo.

A DC foi obrigada a mudar seu nome para “Shazam” e viu sua antiga criação batizar sua grande inimiga. O mundo dos super-heróis não é fácil.

PERSONAGEM
A ascensão e queda de Stan Lee

CRIADOR Stan Lee e Homem-Aranha: autoria questionada em livro (Crédito:Divulgação)

Stanley Martin Lieber começou a trabalhar na empresa Timely Comics em 1939 como auxiliar de escritório. Na época a editora tinha apenas dois personagens: Tocha Humana e Namor, o príncipe submarino. O proprietário, Martin Goodman, só o contratou para atender a um pedido da esposa, que era tia do garoto. Dois anos depois, já como “Stan Lee”, o jovem roteirista tornou-se editor-chefe da rebatizada Marvel – ele tinha apenas 19 anos. Após um período no exército, voltou à empresa e, ao lado dos artistas Jack Kirby e Steve Ditko, criou um incrível elenco de personagens: Homem-Aranha, Thor, X-Men, Homem de Ferro e Hulk, entre outros, além de uma nova versão do Capitão América. Morto aos 95 anos, em 2018, o legado de Stan Lee ganhou nuances menos heróicas na biografia “True Believer: The Rise and Fall of Stan Lee”, de Abraham Riesman. Ainda não lançado no Brasil, a obra o descreve como um manipulador, que levou injustamente créditos por criações que, na verdade, eram também de Kirby e Ditko. As brigas, falências e problemas pessoais descritos no livro não combinam com a imagem invencível que os fãs guardam até hoje.

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